Video Games e Línguas – Como Aprendi Inglês Sem Nem Mesmo Perceber Que Estava Aprendendo

Sem perceber, comecei a aprender o idioma inglês através de uma convivência indireta com ela. Tudo começou com jogos de vídeo game. Eu disse convivência indireta porque na verdade eu gostava era de jogos. Meu primeiro vídeo game foi um MegaVision, um compatível com o vídeo game mais famoso, o Mega Drive. Os jogos que eu jogava nessa época eram bem simples e com pouco texto se comparados ao que temos hoje. Tinham palavras como LIFE (vida), GO (ir, para alguma direção apontada), JUMP (pular), ATTACK (atacar), EASY (fácil), TIME (tempo) ou START (começar); bastante intuitivas. Por exemplo, quando se morria ou perdia corações (que foi por muito tempo e em vários jogos o símbolo da vida). Quando as vidas terminavam, normalmente aparecia na tela GAME OVER (final do jogo), era natural saber o significado daquilo, não? Existiam jogos com estruturas linguísticas mais complexas, com frases e textos. Mas para um garoto pequeno naquela época, eu não me interessava muito.

1- Rocket Knight Adventures (mega Drive) - Exemplo de jogo onde corações eram vida

1 - Rocket Knight Adventures (Mega Drive) - Exemplo de jogo onde corações eram vida. Se todos os corações ficassem vazios, o personagem que que é controlado pelo jogador era derrotado.

Não posso deixar de admitir que a escola teve um papel importante no meu aprendizado. Onde estudei, a matéria de Língua Inglesa não era levada muito a sério e só me recordo de professores que não faziam despertar nos alunos a importância que o inglês iria fazer ou já tinha. Apesar desses professores não tão bons, um deles fez os alunos decorar os verbos, foi o que fiz.

"Os jogos que eu tive acesso eram na maioria em inglês, mas já existiam jogos de desenvolvedores europeus que normalmente te dava a opção entre inglês, espanhol, italiano e alemão – na grande maioria eu escolhia inglês..."

Isso foi bem útil, pois já estava em tempos de ter o vídeo game Playstation, cujo jogos tinham, geralmente, mais textos que a geração anterior de vídeo games. Os jogos que eu tive acesso eram na maioria em inglês, mas já existiam jogos de desenvolvedores europeus que normalmente te dava a opção entre inglês, espanhol, italiano e alemão – na grande maioria eu escolhia inglês, algumas vezes o espanhol (mas isso é outra história). Maior quantidade de texto requer maior vocabulário. Havia jogos em que era necessário realizar tarefas específicas, o que fazia com que eles não fossem mais intuitivos como na geração anterior. Diversas vezes tive que recorrer ao dicionário de inglês-português e livros de inglês para avançar ou completar uma missão. Havia jogos tão bons e cheio de texto que fui obrigado a jogá-lo sempre com um dicionário ao lado. Com o maior prazer, pois muitas histórias em jogos era realmente envolvente.

2 - Final Fantasy VII (Playstation) - jogo com muitos diálogos e uma história envolvente que marcou muitos jogadores

2 - Final Fantasy VII (Playstation) - jogo com muitos diálogos e uma história envolvente que marcou muitos jogadores

Essa necessidade maior de recorrer ao dicionário e traduzir frases de personagens ou instruções do jogos era explicada porque comecei a ter um acesso maior às contrações da língua inglesa como: I’VE (eu tenho), IT’D (seria), HADN’T (não tinha). Fui percebendo com as frases e termos próprios da língua inglesa, que ela tinha sua própria identidade e estrutura, que a sua formação gramatical era diferente da língua portuguesa. Não valia mais a questão de sempre traduzir literalmente os significados e a ordem das palavras em uma frase, pois muitas vezes resultava em algo sem muito sentido e confuso. A escola tinha melhorado um pouco nessa época e um fato que me orgulhava um pouco é que dentre meus colegas da escola, o meu nível de conhecimento em inglês era igual ou maior que um que fazia cursinho de inglês nessa época. Eu percebia que meus conhecimentos em inglês realmente estavam avançando, muito graças a excelentes jogos que me fizeram recorrer a um dicionário. Isso foi em uma época do qual a internet estava se popularizando, final da década de 1990, início dos anos 2000, achava aquilo uma boa ideia, mesmo sem saber a real importância.

Passado mais um tempo, já com acesso à internet em casa. Um dos meus passatempos foi jogo online. Onde pela primeira vez eu poderia me comunicar com pessoas de várias regiões do planeta e quase todos se comunicavam em inglês. Eu joguei muito GunBound, um jogo baseado em turnos, onde cada jogador tem sua vez de realizar o seu movimento, enquanto o jogador não está na sua vez, ele tinha tempo de conversar ou sugerir orientações os membros do seu time por texto ou apenas conversar à seu bel-prazer. Me sentia desafiado a conversar com os estrangeiros e digo que fui bem, com o conhecimento acumulado na época de jogar com dicionário, o da escola conseguia me virar e as próprias conversas dentro do jogo, conseguia me comunicar de forma satisfatória.

3Gunbound (computador) - Tela de carregamento de uma partida

3 Gunbound (computador) - Tela de carregamento de uma partida. Os balões de fala são as mensagens que as pessoas enviam para se comunicar.

Foi nesse tempo também que percebia que as melhores informações que eu poderia procurar estavam na maioria das vezes em inglês, até hoje pode-se dizer isso. A grande maioria de artigos da Wikipedia têm mais conteúdo e são melhores em inglês. As notícias que correm pelo mundo estão quase sempre disponíveis primeiro em inglês, isso foi dando motivação para aprender a língua e ir superando obstáculos.

Mas nem tudo foi perfeito. Os jogos me ajudaram muito nessa fase de aprender a ler e até mesmo escrever. Porém, a parte de pronúncia só fui conseguir aprimorar com um bom curso de inglês. Como meu nível gramatical e de vocabulário já não vinha do zero, fiz um teste de nível e pratiquei mais a parte oral do inglês. Mas ainda há o que melhorar, a evolução nunca para.