Porque os Assírios Falam Aramaico?

Não é necessário acompanhar as notícias para saber das barbaridades que o grupo terrorista autodenominado Estado Islâmico está a realizar no Oriente Médio contra os curdos, os yezidis, os árabes xiitas, e em especial os assírios.

Este povo que um dia dominou o Oriente Médio sofre em dobro as agressões do Estado Islâmico. Primeiramente por serem majoritariamente cristãos orientais (compõe a Igreja do Oriente, não relacionado com a Igreja Católica ou a Ortodoxa), e segundo através da destruição recente dos seus sítios arqueológicos. Hoje contabilizando cerca de apenas um milhão em todo Oriente Médio, os assírios se encontram em uma realidade perturbadora.

(Assíria-iraniana protesta contra o Estado Islâmico em Teerã)

(Assíria-iraniana protesta contra o Estado Islâmico em Teerã)

O observador atento, entretanto, observará que os assírios não falam o árabe ou o“assírio” como primeira lingua. Eles falam o aramaico, a mesma língua de Jesus Cristo. Afinal, porque os assírios [e outros povos do Oriente Médio] falam aramaico? De onde surgiu o aramaico? Como ele se tornou tão prenpoderante até a epóca de Jesus e porque hoje é uma língua minoritária?

O aramaico não nasceu com os assírios. Era a língua falada pelos arameus, um povo semita que se estabeleceu na Mesopotâmia a partir de 1200 a.C., seguindo uma onda de invasões bárbaras as quais “inauguraram” civilizações hoje mais famosas, como os hebreus, os filisteus e os dóricos.

(Império Assírio no seu auge, fonte: Wikimedia Commons)

(Império Assírio no seu auge, fonte: Wikimedia Commons)

Mas antes disto, por volta de 1380 a.C. os reis da Assíria derrubaram seus mestres mitanni, destruindo seu império por volta de 1270 a.C. Eles sobreviveram as incursões bárbaras dos arameus e outros povos, e seis séculos depois subjugaram a Babilônia e o Egito.

O Império Assírio pode ser considerado como o precursor dos Estados modernos no que tange o recrutamento em massa, organização e disiciplina, mas isto não vem ao caso aqui. A maior legacia dos assírios para o mundo foi prover as condições para a ascensão do aramaico como a lingua mais falada no Oriente Médio. Um povo guerreiro, os assírios tinham pouca afeição para o comércio. Este era dominado pelos arameus. Auxiliados por uma Pax Assyriaca – lei soberana e um sistema de estradas – os arameus puderam viajar grandes distâncias, utilizando sua língua em transações e negociações, e dentre em pouco tempo o aramaico se tornaria a lingua franca do império e ganharia status de língua oficial por volta de 740 a.C.

Quando o Império Assírio caiu devido a uma combinação de assaltos barbaros (medos do Irã e citas das estepes nortenhas) e revoltas internas (principalmente na Babilônia), o Arameu sobreviveu. Ciro o Persa conquistaria o Oriente Médio em 550 a.C. e adotaria o Aramaico como língua oficial do Império. Alexandre o Grande e seus sucessores seleucidas, com sua onda helenistica, não lograram substituir a língua semita pelo grego. Ela permanceria invicta na região mesmo enquanto romanos e iranianos degladiavam pelo controle total da Síria e Mesopotâmia.

Mas esta condição, da eternidade do aramaico, viria a mudar com a invasão árabe em 629 d.C. O Califado recém-instituído emergiu de forma repentina e derrotou os romanos e iranianos, debilitados por décadas de guerra incessavél, facilmente. Conquistando todo o Oriente Médio em poucos anos (633-654) e, mais importante, o mantendo, o árabe viria a substituir o aramaico como língua predominante na Mespotâmia, e o assírio como etnia predominante na mesma região.

Séculos de tragédia, como as invasões mongois (1260-1300) e a campanha do conquistador turco-mongol Tamerlão (1336-1405) contra a Igreja do Oriente, viria a reduzir significantemente o número de assírios ao ponto destes serem hoje uma etnia marginal no Oriente Médio.

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A sobrevivência do aramaico é a sobrevivência dos assírios e vice-e-versa. Apesar de terem origens diferentes, hoje o “ser assírio” e o “falar aramaico” são faces da mesma moeda. Considerando a história de resiliência do povo cristão e como estes estão a resistir o Estado Islâmico através de milícias (Unidades de Proteção do Plano do Nínive), há razões para se ter esperança de que o aramaico permanecerá como uma língua viva no Oriente Médio, remontando ao tempo no qual os assírios governavam o mundo conhecido.